Dominava a lei do silêncio no reino dos lobos. A vida na floresta era cruel e a sobrevivência difícil. Todos deviam caçar com cuidado e rapidez, alcançando a presa sem serem notados. Silêncio. Também na toca, pois seus inimigos podiam achá-los, tomar sua comida e seus filhotes. O gasnido emitido numa briga era sinal de fraqueza e podia ser punido até mesmo com o banimento da alcatéia. O macho alfa atual nunca emitira um único som, mesmo ao nascer, mesmo quando passou fome, mesmo quando perdeu um dos olhos.
Hoje havia sido um dia bom. Duas corsas foram encurraladas e uma delas havia quebrado a pata dianteira num buraco logo no começo da caçada, o que permitiu dividir o bando, deixando esta para os mais jovens. A outra havia sido habilmente levada a uma encosta perto da toca dos lobos, onde conheciam muito bem. Dividida a caça segundo a hierarquia, alguns dormiam ao entardecer, enquanto o Alfa caminhava sozinho em direção ao final da floresta. Estava na hora de procurar outro lar. Este já havia sido invadido várias vezes. Sempre quando a maior parte da alcateia estava caçando, sobrando os filhotes e algumas fêmeas. O grupo ainda era forte e grande, mas sentiram as baixas. Todos queriam a vingança, porém nunca conseguiram seguir o rastro o suficiente para encontrarem os malditos.
O rio corria calmo a sua esquerda enquanto alguns pássaros fugiam quando passava pelas árvores. Iria subir pela colina para tentar achar um lugar espaçoso e com tanta grama verde quanto da toca atual. Talvez ficasse também do lado de uma pequena área de lama onde gostava de esfregar o fucinho, antes de se lavar no rio. Isso era estranho, porém ninguém diria nada, muito menos ao Alfa. Era o silêncio.
Um cheiro estranho. Rapidamente o Alfa ficou alerta buscando melhor o odor diferente. Eram dois. Um deles pouco familiar, outro completamente esquisito, era aquele que tentavam rastrear. Vingança. Caminhou discretamente em direção à fonte do seu rancor. Verificaria melhor a situação e buscaria seus companheiros. Desta vez seria guerra.
A floresta foi se abrindo para uma clareira onde havia fogo no centro. O sol se punha e a fogueira era visível de longe. Já vira fogo antes na floresta. Algumas vezes os obrigara a fugir até que pudessem retornar em segurança. Outras o fogo era pequeno e sua curiosidade o fizera chegar bem perto. Sozinho, pois nenhum outro soltaria um pio, mas também não o acompanharia. Contudo, este fogo trazia um cheiro diferente, cheiro de comida. Sangue quente misturada com carne macia de coelho, um pouco queimado. Também havia folhas de algumas árvores e alguns arbusto que sentira por sua vida. Seus dentes salivavam e estava difícil de se concentrar. Atrás de um rochedo mais perto do acampamento, recuperou o fôlego para clarear a mente. Uma armadilha. Devia chegar mais perto bem quieto e voltar para os outros. Comeria mais depois.
Um descuido e esbarrou em algumas pedras que desceram pela pequena ladeira batendo o suficiente para fazer barulho. Não deu tempo para se condenar. Uma saraivada de latidos foram lançados em sua direção. Do cheiro mais familiar. Quanta indisciplina, nada de silêncio. Ao invés de surpreendê-lo no devaneio e descuido devido à comida ao fogo, o barulhento anunciava sua presença para que tudo o escutasse de longe. Saiu do esconderijo para encarar o desordeiro e lhe dar uma lição. A imagem o fez parar. Parecia um dos seus, porém era definitivamente diferente. Antes que pudesse se recuperar da perplexidade, vários dos odores estranhos se aproximavam. Faziam um barulho diferente. Não corriam como estava acostumado. Duas patas. Pássaros? Não. Pássaros batem asas. Era tudo muito confuso. Decidiu fugir.
Os latidos e os cheiros vinham ao seu encalço. Por seu instinto correu rapidamente em direção à toca. Quando já sentia o cheiro de sua alcateia, seu instinto de perigo comprimiu seu pescoço. Estava levando os inimigos diretamente à sua casa. Mudou instantaneamente sua rota, esperando que seus algozes o seguissem. Os cheiros o acompanhavam, portanto parecia estar funcionando. Não, não estava. O cheiro ficava fraco mesmo sem vento. Seu coração batia mais rápido ainda. Acelerou e foi pelo atalho que descobrira há muitos anos quando ainda fazia pirraça com os mais velhos. Naquela relva escura com pequenas flores vermelhas que surgiam quando o inverno passava, onde corria apenas por correr sob um sol que nascia, todos os dias da primavera.
Avistou com o olho bom os estranhos se aproximando cuidadosamente da sua família. Teria que passar por eles para chegar. Não conseguiria derrotar todos sozinho. Precisava da força de seu bando. Silêncio. Apenas sua boca ofegando fazia algum som. Avançou, correu e pulou. Do fundo de seus pulmões gritou até explodir. Os inimigos pararam assustados, enquanto os lobos ouviam o chamado. Nunca acontecera antes, porém todos sabiam. Os lobos saíram para a luta.
Tudo se passou em meio à névoa do vapor das respirações. Bocas se fechando sobre os inimigos, lobos caindo imóveis, inimigos desistindo e fugindo. Estranhos corpos longos que comeriam depois. Mortos que velariam mais tarde. Tinha coisas mais importantes a resolver. Seus lobos estavam a salvo, por enquanto. No entanto, a regra havia sido quebrada. O uivo do Alfa nunca seria esquecido. Os sobreviventes o olhavam, aguardando. Fez o que devia e faria novamente. Não poderia ser mais o líder, iria seguir o caminho solitário. Ninguém tentou impedir, ninguém o seguiu. Exceto o silêncio.