quarta-feira, 19 de outubro de 2011

A caneta do meu avô

Meu avô sempre tinha uma caneta que não escrevia no bolso da camisa. Não era enfeite pois era feia e nunca combinava com suas gravatas. Sempre causava má impressão aquele objeto pesado que puxava sua roupa para baixo na altura do seu peito esquerdo. Mesmo assim não me recordo de um único dia em que o homem tenha deixado aquele detalhe de lado. 
                Certa vez , quando já tinha perto dos meus dez anos e o espírito em brasa solta faísca ocasionalmente, tirei cuidadosamente aquele artefato do septagenário que cochilava com a cabeça caída na poltrona de casa. Se escrevesse, teria usado a peça para fazer alguma arte na sua careca. Ao invés disso, a escondi debaixo de uma rapoza entalhada de mamãe que ficava na mesa de troféus.
                Fiquei contorcendo os pés e as pernas enquanto esperava que acordasse. Por três vezes estiquei o braço para cutucá-lo, mas tinha de esperar, assim o susto seria maior e meu prazer, multiplicado. Quando já perdia o interesse e me virava em direção à cozinha para achar algo mais divertido,  meu avô levantou num pulo e me chamou.
                Quem levou um susto fui eu e com o coração acelerado fiquei me perguntando se ele já havia percebido a travessura e iria me por de castigo. Estava começando a fazer beiço na hora em que ele sorriu e me convidou para caminharmos à sorveteria da esquina.
                Pulei de alegria, pois  naquele tempo esses pequenos eventos eram tão raros e tão caros que geralmente ocorriam em datas especiais. Não era meu aniversário, mas quem era eu para reclamar. Tantos sábios já se ocuparam de inventar um ditado para estas ocasiões que eu fui correndo na frente.
                Ao entrar pela casa de gelato, minhas pernas estavam bambas e esperei meu mecenas sentado. Como demorava. Era a idade, ou sua perna manca da guerra. Pouco me importava na época.
                Dividi uma bola de chocolate com ele, embora tenha me oferecido duas, minha educação não iria permitir abusos. Lembro que vovô sorria o tempo inteiro enquanto ele me contava uma das suas histórias da guerra. Nem vou dizer que esqueci tudo, pois para isso deveria ter prestado atenção.
                Na última colherada olhei satisfeito para o rosto do velhinho e notei que ele disfarçava uma lágrima ao se levantar para voltarmos. Tive que acelerar o passo para alcançá-lo e conseguir fitá seu rosto, um pouco intrigado e um tanto assustado.
                - Sabe de quem ganhei a caneta, meu querido? – ele sempre me contrangia assim. Do sargento que eu havia salvo naquela emboscada. Foi depois de voltarmos ao nosso país. Ele não saiu nada bem depois daquilo tudo, sabe? Mesmo assim era muito grato a mim. Ele, sua esposa e seus dois filhos.
                Chegamos junto com meu pai que abria o portão para passarmos e seu pai completou:
                - Já faz tempo que ela não funciona, mas a carrego mesmo assim para sempre lembrar que algumas coisas perdem a função, não a importância.
                Acho que foi nessa época que comecei a ter maturidade para aprender e admirar meu vô. A caneta ficou debaixo da estátua até eu ser digno de a carregar.

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