sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Peso


                Ele era o carregador. Carregava tudo nos braços, nas costas, nas pernas, na cabeça. Tudo que lhe pedissem ou mandassem. Fosse seu ou dos outros. Levava pesadas caixas e maciços entulhos de um lado do corpo e no outro, toneladas de comida. Correndo a galope, no trote ou a passos de namorados, sempre carregando.
                Subia e descia a ladeira, com o suor lavando o seu corpo, bebendo apenas da água que também transportava. Fôlego também. Tinha de guardar em algum canto que sobrasse sem atrapalhar a chegada das encomendas.
                O pescoço curvava, mas logo levantava, pois o peso das idéias e lembranças na cabeça podiam ser mais insustentáveis ainda se não cuidasse. Algumas vezes o ombro formigava, porém bastava colocar outra bagagem maior para esmagar esses insetos e tudo passava.
                Se um dos lados desequilibrava pela carga assimétrica, bora arranjar mais para o outro lado. Não podia era ter partes na leveza. Os raios do sol não o queimavam porque nunca chegavam a atravessar os quilos que o cobriam. O frio não era problema para o casaco de embrulhos e caixotes.
                Puxava e empurrava obstáculos com a mesma determinação que as carregava. De frente, atrás, para direita ou esquerda, tudo era apenas coisas para tirar de um lugar e deixar em outro.
                O mundo era mais brando até o dia em que ele não podia mais. Foi quando a vida pesou demais.

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