Ele era o carregador. Carregava tudo nos braços, nas costas,
nas pernas, na cabeça. Tudo que lhe pedissem ou mandassem. Fosse seu ou dos
outros. Levava pesadas caixas e maciços entulhos de um lado do corpo e no
outro, toneladas de comida. Correndo a galope, no trote ou a passos de namorados,
sempre carregando.
Subia e
descia a ladeira, com o suor lavando o seu corpo, bebendo apenas da água que
também transportava. Fôlego também. Tinha de guardar em algum canto que
sobrasse sem atrapalhar a chegada das encomendas.
O
pescoço curvava, mas logo levantava, pois o peso das idéias e lembranças na cabeça
podiam ser mais insustentáveis ainda se não cuidasse. Algumas vezes o ombro
formigava, porém bastava colocar outra bagagem maior para esmagar esses insetos
e tudo passava.
Se um
dos lados desequilibrava pela carga assimétrica, bora arranjar mais para o
outro lado. Não podia era ter partes na leveza. Os raios do sol não o queimavam
porque nunca chegavam a atravessar os quilos que o cobriam. O frio não era
problema para o casaco de embrulhos e caixotes.
Puxava
e empurrava obstáculos com a mesma determinação que as carregava. De frente,
atrás, para direita ou esquerda, tudo era apenas coisas para tirar de um lugar
e deixar em outro.
O mundo
era mais brando até o dia em que ele não podia mais. Foi quando a vida pesou
demais.
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