sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Peso


                Ele era o carregador. Carregava tudo nos braços, nas costas, nas pernas, na cabeça. Tudo que lhe pedissem ou mandassem. Fosse seu ou dos outros. Levava pesadas caixas e maciços entulhos de um lado do corpo e no outro, toneladas de comida. Correndo a galope, no trote ou a passos de namorados, sempre carregando.
                Subia e descia a ladeira, com o suor lavando o seu corpo, bebendo apenas da água que também transportava. Fôlego também. Tinha de guardar em algum canto que sobrasse sem atrapalhar a chegada das encomendas.
                O pescoço curvava, mas logo levantava, pois o peso das idéias e lembranças na cabeça podiam ser mais insustentáveis ainda se não cuidasse. Algumas vezes o ombro formigava, porém bastava colocar outra bagagem maior para esmagar esses insetos e tudo passava.
                Se um dos lados desequilibrava pela carga assimétrica, bora arranjar mais para o outro lado. Não podia era ter partes na leveza. Os raios do sol não o queimavam porque nunca chegavam a atravessar os quilos que o cobriam. O frio não era problema para o casaco de embrulhos e caixotes.
                Puxava e empurrava obstáculos com a mesma determinação que as carregava. De frente, atrás, para direita ou esquerda, tudo era apenas coisas para tirar de um lugar e deixar em outro.
                O mundo era mais brando até o dia em que ele não podia mais. Foi quando a vida pesou demais.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Manhã sonolenta


                
Este próximo texto é apenas um exercício.
                Minha mente desperta bem preguiçosamente, mas meus olhos ainda estão fechados. Cansados. Respiro devagar e fundo.
                Tic ...
                Tac ...
                Sinto que o sol já levantou, porém isso ainda não é motivo suficiente para eu fazer o mesmo. Viro para o lado e puxo a coberta sobre a cabeça. A escuridão me enlaça mais uma vez e mais uma vez minha mente se ativa e mais uma vez minhas pálpebras ainda não se abriram. Diferente da minha boca que lança um longo bocejo, sem pressa.
                Tic ...
                Tac...
                Viro para o outro lado,  no entanto minha cabeça fica descoberta, pois o ar já estava raro e bem quente com o meu próprio bafo. Encolho-me todo em conchinha. Os olhos estão tão pesados que os sinto inchados. Desta vez o sono não vem novamente,  nem mesmo aquele bem  levezinho.
                Tic ...
                Tac ...
                Estico todo o corpo rangido e cansado. Abro um dos olhos arenosos e contraio o canto da boca. Já havia amanhecido, mas era um dia cinzento e com garoa. O vento sussurrava na janela de metal do meu quarto. Devagar. Fecho os olhos e a boca. Contraio os lábios e viro de bruços.
                Tic ...
                Tac ...
                Acho que não dará certo tentar me asfixiar no travesseiro para dormir mais um pouco. Talvez seja melhor aproveitar esse dia. Frio e feio. Talvez possa tomar um café da manhã. Eu teria de preparar. Quem sabe se eu me vestir algo bonito e confortável para me divertir. Teria de lavar e passar.
                Tic ...
                Tac ...
                Resolvi o que farei. Ficarei na cama. Hoje é domingo.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

A caneta do meu avô

Meu avô sempre tinha uma caneta que não escrevia no bolso da camisa. Não era enfeite pois era feia e nunca combinava com suas gravatas. Sempre causava má impressão aquele objeto pesado que puxava sua roupa para baixo na altura do seu peito esquerdo. Mesmo assim não me recordo de um único dia em que o homem tenha deixado aquele detalhe de lado. 
                Certa vez , quando já tinha perto dos meus dez anos e o espírito em brasa solta faísca ocasionalmente, tirei cuidadosamente aquele artefato do septagenário que cochilava com a cabeça caída na poltrona de casa. Se escrevesse, teria usado a peça para fazer alguma arte na sua careca. Ao invés disso, a escondi debaixo de uma rapoza entalhada de mamãe que ficava na mesa de troféus.
                Fiquei contorcendo os pés e as pernas enquanto esperava que acordasse. Por três vezes estiquei o braço para cutucá-lo, mas tinha de esperar, assim o susto seria maior e meu prazer, multiplicado. Quando já perdia o interesse e me virava em direção à cozinha para achar algo mais divertido,  meu avô levantou num pulo e me chamou.
                Quem levou um susto fui eu e com o coração acelerado fiquei me perguntando se ele já havia percebido a travessura e iria me por de castigo. Estava começando a fazer beiço na hora em que ele sorriu e me convidou para caminharmos à sorveteria da esquina.
                Pulei de alegria, pois  naquele tempo esses pequenos eventos eram tão raros e tão caros que geralmente ocorriam em datas especiais. Não era meu aniversário, mas quem era eu para reclamar. Tantos sábios já se ocuparam de inventar um ditado para estas ocasiões que eu fui correndo na frente.
                Ao entrar pela casa de gelato, minhas pernas estavam bambas e esperei meu mecenas sentado. Como demorava. Era a idade, ou sua perna manca da guerra. Pouco me importava na época.
                Dividi uma bola de chocolate com ele, embora tenha me oferecido duas, minha educação não iria permitir abusos. Lembro que vovô sorria o tempo inteiro enquanto ele me contava uma das suas histórias da guerra. Nem vou dizer que esqueci tudo, pois para isso deveria ter prestado atenção.
                Na última colherada olhei satisfeito para o rosto do velhinho e notei que ele disfarçava uma lágrima ao se levantar para voltarmos. Tive que acelerar o passo para alcançá-lo e conseguir fitá seu rosto, um pouco intrigado e um tanto assustado.
                - Sabe de quem ganhei a caneta, meu querido? – ele sempre me contrangia assim. Do sargento que eu havia salvo naquela emboscada. Foi depois de voltarmos ao nosso país. Ele não saiu nada bem depois daquilo tudo, sabe? Mesmo assim era muito grato a mim. Ele, sua esposa e seus dois filhos.
                Chegamos junto com meu pai que abria o portão para passarmos e seu pai completou:
                - Já faz tempo que ela não funciona, mas a carrego mesmo assim para sempre lembrar que algumas coisas perdem a função, não a importância.
                Acho que foi nessa época que comecei a ter maturidade para aprender e admirar meu vô. A caneta ficou debaixo da estátua até eu ser digno de a carregar.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Silêncio

Dominava a lei do silêncio no reino dos lobos. A vida na floresta era cruel e a sobrevivência difícil. Todos deviam caçar com cuidado e rapidez, alcançando a presa sem serem notados. Silêncio. Também na toca, pois seus inimigos podiam achá-los, tomar sua comida e seus filhotes. O gasnido emitido numa briga era sinal de fraqueza e podia ser punido até mesmo com o banimento da alcatéia. O macho alfa atual nunca emitira um único som, mesmo ao nascer, mesmo quando passou fome, mesmo quando perdeu um dos olhos.
         Hoje havia sido um dia bom. Duas corsas foram encurraladas e uma delas havia quebrado a pata dianteira num buraco logo no começo da caçada, o que permitiu dividir o bando, deixando esta para os mais jovens. A outra havia sido habilmente levada a uma encosta perto da toca dos lobos, onde conheciam muito bem. Dividida a caça segundo a hierarquia, alguns dormiam ao entardecer, enquanto o Alfa caminhava sozinho em direção ao final da floresta. Estava na hora de procurar outro lar. Este já havia sido invadido várias vezes. Sempre quando a maior parte da alcateia estava caçando, sobrando os filhotes e algumas fêmeas. O grupo ainda era forte e grande, mas sentiram as baixas. Todos queriam a vingança, porém nunca conseguiram seguir o rastro o suficiente para encontrarem os malditos.
         O rio corria calmo a sua esquerda enquanto alguns pássaros fugiam quando passava pelas árvores. Iria subir pela colina para tentar achar um lugar espaçoso e com tanta grama verde quanto da toca atual. Talvez ficasse também do lado de uma pequena área de lama onde gostava de esfregar o fucinho, antes de se lavar no rio. Isso era estranho, porém ninguém diria nada, muito menos ao Alfa. Era o silêncio.
Um cheiro estranho. Rapidamente o Alfa ficou alerta buscando melhor o odor diferente. Eram dois. Um deles pouco familiar, outro completamente esquisito, era aquele que tentavam rastrear. Vingança. Caminhou discretamente em direção à fonte do seu rancor. Verificaria melhor a situação e buscaria seus companheiros. Desta vez seria guerra.
         A floresta foi se abrindo para uma clareira onde havia fogo no centro. O sol se punha e a fogueira era visível de longe. Já vira fogo antes na floresta. Algumas vezes os obrigara a fugir até que pudessem retornar em segurança. Outras o fogo era pequeno e sua curiosidade o fizera chegar bem perto. Sozinho, pois nenhum outro soltaria um pio, mas também não o acompanharia. Contudo, este fogo trazia um cheiro diferente, cheiro de comida. Sangue quente misturada com carne macia de coelho, um pouco queimado. Também havia folhas de algumas árvores e alguns arbusto que sentira por sua vida. Seus dentes salivavam e estava difícil de se concentrar. Atrás de um rochedo mais perto do acampamento, recuperou o fôlego para clarear a mente. Uma armadilha. Devia chegar mais perto bem quieto e voltar para os outros. Comeria mais depois.
         Um descuido e esbarrou em algumas pedras que desceram pela pequena ladeira batendo o suficiente para fazer barulho. Não deu tempo para se condenar. Uma saraivada de latidos foram lançados em sua direção. Do cheiro mais familiar. Quanta indisciplina, nada de silêncio. Ao invés de surpreendê-lo no devaneio e descuido devido à comida ao fogo,  o barulhento anunciava sua presença para que tudo o escutasse de longe. Saiu do esconderijo para encarar o desordeiro e lhe dar uma lição. A imagem o fez parar. Parecia um dos seus, porém era  definitivamente diferente. Antes que pudesse se recuperar da perplexidade, vários dos odores estranhos se aproximavam. Faziam um barulho diferente. Não corriam como estava acostumado. Duas patas. Pássaros? Não. Pássaros batem asas. Era tudo muito confuso. Decidiu fugir.
         Os latidos e os cheiros vinham ao seu encalço. Por seu instinto correu rapidamente em direção à toca. Quando já sentia o cheiro de sua alcateia, seu instinto de perigo comprimiu seu pescoço. Estava levando os inimigos diretamente à sua casa. Mudou instantaneamente sua rota, esperando que seus algozes o seguissem. Os cheiros o acompanhavam, portanto parecia estar funcionando. Não, não estava. O cheiro ficava fraco mesmo sem vento. Seu coração batia mais rápido ainda. Acelerou e foi pelo atalho que descobrira há muitos anos quando ainda fazia pirraça com os mais velhos. Naquela relva escura com pequenas flores vermelhas que surgiam quando o inverno passava, onde corria apenas por correr sob um sol que nascia, todos os dias da primavera.
         Avistou com o olho bom os estranhos se aproximando cuidadosamente da sua família. Teria que passar por eles para chegar. Não conseguiria derrotar todos sozinho. Precisava da força de seu bando. Silêncio. Apenas sua boca ofegando fazia algum som. Avançou, correu e pulou. Do fundo de seus pulmões gritou até explodir. Os inimigos pararam assustados, enquanto os lobos ouviam o chamado. Nunca acontecera antes, porém todos sabiam. Os lobos saíram para a luta.
         Tudo se passou em meio à névoa do vapor das respirações. Bocas se fechando sobre os inimigos, lobos caindo imóveis, inimigos desistindo e fugindo. Estranhos corpos longos que comeriam depois. Mortos que velariam mais tarde. Tinha coisas mais importantes a resolver. Seus lobos estavam a salvo, por enquanto. No entanto, a regra havia sido quebrada. O uivo do Alfa nunca seria esquecido. Os sobreviventes o olhavam, aguardando. Fez o que devia e faria novamente. Não poderia ser mais o líder, iria seguir o caminho solitário. Ninguém tentou impedir, ninguém o seguiu. Exceto o silêncio.